Translate

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

MENINOS... EU VÍ !

Um velho timbira, coberto de glória, guardou a memória do moço guerreiro, do velho tupi !
E à noite nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, dizia, prudente:
- Meninos eu vi ! 
(Y - Juca Pirama, Gonçalves Dias)


Maria Luiza e eu, Guarujá, 1957
1957 (aos 2 anos)  ­–  Guardarei sempre no meu coração a lembrança querida da minha primeira amiguinha, Maria Luiza de Souza Mairelles. Na última vez que brincamos juntas, ela me perguntou: “– Como é o Céu, Bia?” Eu respondi: “–É um lugar lindo, onde se pode brincar o dia inteiro e nunca ficamos de castigo.” Ela olhou-me com seus olhinhos febris, que por um instante se encheram de alegria, e questionou: “– Eu posso ir para lá?” E eu disse firmemente: “– Lógico! Você é uma anjinha! E os anjinhos moram com o Papai do Céu!”
Maria Luiza foi para o Céu antes de eu completar 5 anos.

1959 ­ (aos 4 anos) –  Na missa dominical da capela de madeira da futura Igreja São Gabriel, o governador Carvalho Pinto tinha mais prazer em brincar comigo do que rezar, chamava-me de “menininha dourada”e dizia que Deus não iria se importar dele brincar com um “anjinho.” Anjinho, eu? Anjinhos moram no Céu! Se eu sou, o que faço aqui na Terra?

1960 (aos 5 anos) – Em algum dia do ano de 1960, eu brincava com as outras crianças nos jardins da casa do Dr. Ruy Baptista Pereira, sob os olhos atentos das nossas babás, quando pelo portão entrou o Sr. Jânio da Silva Quadros e eu ao reconhecê-lo fui logo cantando “Varre, varre vassourinha….” Ele riu e eu ri também. Perguntei se ele tinha uma “vassourinha” para mim, então ele tirou a que ele tinha na lapela e colocou na gola do meu vestido e em troca quis um beijinho. Eu saí correndo para exibir o meu troféu para as outras crianças e levei uma carraspana da minha babá por ser tão metida, nada certo para uma menina educada.

1961 (aos 6 anos) ­– Fiquei triste porque Jucelino, meu ídolo, não seria mais presidente do Brasil, e o novo presidente seria aquele homem engraçado e esquisito da “vassourinha.” Perguntei para Mamãe se eu ia ter que pegar a minha vassoura de brinquedo para ajudar o novo presidente  a “varrer o Brasil.” No meu ponto de vista o Brasil era muito grande para ele varrer sozinho.

Vovó Zilda, eu e Mamãe
            25 de agosto de 1961 – Coitadinho do presidente ficou cansado de ficar varrendo o Brasil que deixou a vassoura de lado e foi-se embora!

            7 de setembro de 1961 – Lindinha a mulher do novo presidente, tão parecida com a mulher do maioral dos presidentes do mundo, o lindo presidente norte-americano John Kennedy.

1963 (aos 8 anos) – 22 de novembro – Voltei da escola, almocei e corri para ver meus desenhos animados na TV no quarto dos meus pais. Então, meu programa favorito na TV Tupi foi interrompido e o locutor do jornal deu a notícia com voz grave: “Hoje, durante sua visita a cidade de Dallas no Texas, o presidente dos Estados Unidos da América John Kennedy sofreu um atentado e foi baleado, estando em estado grave.” Desci a escada aos trombolhões anunciando para todos a terrível notícia. Logo voltei para a frente da TV, ansiosa desejando ardentemente que meu ídolo maior sobrevivesse. Mas, quando a notícia do falecimento foi dada eu comecei a chorar e chorei a tarde inteira, como se tivesse perdido o meu próprio pai.
             
1964 (aos 9 anos) – Desde que o presidente da vassoura fora embora, algo estranho começara a acontecer, a cidade de São Paulo, que antes era tão calma vivia tomada por grupos agitadores fazendo comícios e passeatas de protestos. A tal ponto que os deliciosos chás que eu costumava ir tomar com meus avós no Mappin ou na Confeitaria Vienense foram cancelados e no máximo íamos no salão de chá da Confeitaria Fasano, no Conjunto Nacional, na Av. Paulista, longe dos tumultos do Centro, onde era o consultório do meu avô.

O assunto que mais se falava lá em casa nas horas das refeições era política. Comecei a passar mais e mais tempo com a minha avó materna, pois os lugares que minha mãe ia eu não podia ir, e o mesmo se dava nos finais-de-semana, meus pais diziam que era melhor eu ficar com a minha avó e só levavam o meu irmão, pois os amigos deles só tinham filhos homens. Vovó Zilda era fria e rigorosa, tinha uma educação britânica, já meu avô, que estudara medicina na Alemanha e só retornara ao Brasil por causa da 2a. Guerra, era favorável a uma educação germânica. Eu não via a diferença entre os dois modos, pois eram  ambos severos quanto à disciplina. Aqueles anos sem dúvida fizeram toda diferença na maneira que eu fui educada, apesar de eu me sentir muito triste por sentir-me afastada dos meus pais, contudo o que aprendi com meus avós foi-me de valia para o resto da vida.

Então, após o assassinato de John Kennedy, do dia para noite a minha vida mudou, e meus pais acharam que já era hora de eu tomar conhecimento do que estava acontecendo e da ameaça de uma “revolução” e as consequências que isso teria para as nossas vidas.  Nos meus sete anos era muito difícl entender o que era uma ditadura comunista e o que era uma democracia, só percebia que os meus pais tinham um verdadeiro horror à perspectiva dos comunistas tomarem as rédeas do governo do Brasil, e que eles eram os inímigos que deviam ser combatidos. E que toda a ameaça de uma revolução era culpa daquele presidente casado com uma cópia mal-feita de Jackeline Kennedy.

A partir de janeiro de 1964, a minha casa virou ponto de reunião de mulheres de tarde e homens e mulheres à noite, o assunto era sempre o mesmo, como evitar que o comunísmo tomasse o país. Eu ajudava a servir os convidados e ia ouvindo uma coisa aqui e outra ali, e lá no meu coraçãozinho eu sentia um aperto de medo pelo futuro. Quando chegou o final de fevereiro, o início das aulas no colégio foi suspenso, pois as freiras temiam pela segurança das alunas, já que atentados armados haviam se tornado comum.  Um dia mamãe chegou em casa com um montão de fitas verde-amarelas e todos nós, inclusive as empregadas passamos a dedicar nossos dias a fazer laços de fita  para as mulheres que participariam de uma manifestação chamada “A Marcha da Família pela Democracia,” tinha a liderança da doce frerinha carmelita Ana de Lourdes, Lucília Baptista Pereira, a irmã do Dr. Ruy Baptistas Pereira ( na casa de quem conhecer Jânio Quadros), que eram netos de Ruy Barbosa. Todos lacinhos ficaram prontos a tempo e no dia 19 de março, dia de São José, padroeiro da famíla, mamãe saiu de casa com suas amigas, e pareceiam como soldados que iam para a  guerra. Naturalmente eu não pude ir, mas eu ví tudo pela televisão e fiquei feliz quando tarde da noite meus pais chegaram sãos e salvos em casa. 


Os dias que se seguiram foram ainda mais estranhos, a tarefa agora era armazenar comida, produtos essenciais e medicamentos numa verdadeira logística de guerra. Minha avó Zilda ajudou bastante, pois tinha experiência no assunto, pois passara pela Revolução de 1930 e de 1932 e vira o marido sair de casa para ir às fileiras de combate, e depois teve que enfrentar os racionamentos da 2a Guerra Mundial.

Na noite do dia 30 de março de 1964, meu padrinho querido Luís Carlos Lara Campos chegou em casa carregando rifles e revólveres, a hora do combate chegara. Como um general chamou os homens que estavam lá em casa às armas, muitos deles tinham passado os finais-de-semana treinando tiro nas fazendas paulistas, mas não passavam de homens movidos apenas por uma coragem destemida pelo desejo de defender o modo de ser e viver do povo paulista que não aceita cabresto de ninguém. Paulistas que enfrentaram Getúlio Vargas e não  muito menos aceitariam o desejo de opressão de suas cobras criadas que insistiam em levar o Brasil para longe da liberdade democrática e do capitalismo. Naquela noite na maioria dos lares paulistanos as mulheres fizeram vigílias rezando seus rosários, e como Helenas esperaram seus maridos voltarem para casa.

No dia 1o. de abril de 1964, Jango Goulart foi deposto do cargo de Presidente da República do Brasil. Nennhum tiro fora disparado. O Brasil estava salvo do perigo comunista.

No dia 2 de abril de 1964, uma junta militar assumiu o controle da nação,  constituindo-se como o  Supremo Comando da Revolução, que no dia 9 de abril baixaria o primeiro de tantos outros Atos Institucionais, com dispositivos legais que davam poderes aos novos ocupantes do governo brasileiro e tiravam os direitos democráticos e cívis do povo brasileiro. Por esse Ato Institucional as eleições presidenciais diretas estavam marcadas para 3 de outubro de 1965, assegurando que a permanência dos militares no poder seria provisória e atenderia a aspiração do povo brasileiro de restabelecimento da ordem democrática no país e impedir a comunização do país.

 No dia 15 de abril foi empossado o novo presidente, o General Castelo Branco. Pela primeira vez na minha vida tive consciência do perigo que o mundo oferecia, e que aqueles homens sérios em seus uniformes verdes-oliva impunham a todos uma autoridade incontestável, e que esse rigor seria a solução para que a vida voltasse ao normal, mas os dias de esperança e entusiasmo de JK demorariam muitas décadas para retornarem, mas havia um grande esforço para continuar a vida com “normalidade,” como se nada grave tivesse acontecido.





1965 – Fiz 10 anos, e as eleições diretas à presidência da República não aconteceram, só para governadores.

1966  (aos 11 anos) – Um atentado terrorísta de bomba no aeroporto de Guararapes, em Recife, garantirá a eleição indireta de um novo presidente militar, o General Costa e Silva e com ele vem a esperança de abertura política e do retorno à democracia.








Minha grande alegria nesse ano foi ser a “noiva” da festa caípira na escola de dança da Madame Poços Leitão, e ter como noivo o meu primeiro namoradinho, Roberto Fleury Coelho dos Santos, o Rô.  Ele tinha me dado um casal de passarinhos paulistinhas como presente de casamento, mas no dia seguinte os passarinhos apareceram mortos e eu me debulhei em lágrimas inconsoláveis. Mas, o pior estava por vir. Rô caíu das escadas no Colégio Ofélia Fonseca, onde estudava com meu irmão, e batesse com a cabeça. O que era para ser um mero galo na cabeça dura dele virou um tumor maligno. Nossos planos de casamento e da lua-de-mel que ele me levaria passeando num carro conversível pela Cotê   d'Azur jamais aconteceriam. Em vez deles, até os meus 14 anos, eu cumpriria a rotina de vida visitá-lo no hospital. Até que um dia, quando eu fui visitá-lo no Hospital Samaritano, levando uma dezena de pastéis que ele adorava, eu entrei esbaforida no quarto reclamando do calor que fazia lá fora e sentei-me na cama dele, que estava junto à janela. Então, ele disse com uma voz cheia de tristeza: “– Quem me dera poder reclamar do calor como você. Bia, nunca mais reclame do calor, prometa para mim! Eu estou morrendo, e não sei se estarei aqui amanhã para sentir a alegria de estar vivo.” Senti-me tão envergonhada, eu falara aquilo justamente para parecer natural, enquanto estava cheia de angustia pela proximidade da partida dele. Rô foi ser anjo no Céu poucos dias depois. 


1967 (aos 12 anos) – Para alegrar a juventude e afastá-la dos movimentos subversivos surgem os Festivais de Música Popular Brasileira e o Programa da Jovem Guarda na TV Record de São Paulo, espalhando uma verdadeira febre musical pelo país.

1968 (aos 13 anos) ­­– Início dos ataques terrorístas. Todo cuidado é pouco para andar em São Paulo, uma bomba pode explodir a qualquer momento!

No dia 22 de abril, o jovem Ruy Mesquita Filho se apresentou a mim no Clube Harmonia de Tênis, dizendo que o meu avô for a pediatra dele quando criança. Toda razão de ser, pois meu avô e o avô dele, o jornalista Dr. Júlio Cesar Ferreira de Mesquita Filho, lutaram juntos contra Getúlio Vargas tanto na Revolução de 1930, como na Revolução Constitucionalista de 1932.

Se isso podia nos aproximar, o fato do meu pai ter sido noivo da filha do governado de São Paulo, Sr. Adhemar de Barros, que expropriou o jornal “O Estado de São Paulo,” em 1940, da família Mesquita, e obrigou o  Dr. Júlio a exilar-se, era causa suficiente para que um futuro para nós fosse impossível. Mas isso não impediu que ele fosse o meu primeiro amor ao melhor estilo Romeu e Julieta, apesar dele ser 7 anos mais velho do que eu.

Nossa história de “amor” transcendeu os anos, apesar de nunca termos sido namorados de verdade, e foi repleta situações dramáticas para nós dois e acabou virando mais lenda que realidade, mas nossa amizade nunca acabou e permanece viva até hoje. Ruy sem dúvida é uma das poucas pessoas que posso realmente chamar de amigo. Foi com ele que adquiri a paixão por duas coisas: política e jornalísmo. Apesar da nossa forte amizade, jamais tive uma artigo meu publicado em qualquer veículo do Grupo Estadão, isso chama-se “ética,” não se mistura amizade com negócios, mas ele sempre me ajudou a superar os problemas da minha vida e sempre esteve presente quando precisei dele e creio que a recíproca da minha parte foi também sempre verdadeira.

1969  (aos 14 anos) – O presidente Costa e Silva fica misteriosamente doente. Em seu lugar é eleito indiretamente o General Garrastazu Médici que reafirmou que: “A plenitude do regime democrático é uma aspiração nacional. (…) Creio necessário consolidar (…) o sistema representativo baseado na pluralidade dos partidos e na garantia dos direitos dos homem.” Mais esperança e tem início o tempo do chamado “Milagre Brasileiro.”

 1970 (aos 15 anos) – Nunca o povo brasileiro comemorou tanto a vitória de uma Copa do Mundo. Ver o Presidente Medici carregando a bandeira do Brasil fez parecer até que ele era como nós,  e o “Prá frente Brasil” com o “Ninguém segura esse país” vendiam a idéia de que o país do futuro tinha chegado. E na campanha entrou também o adesivo “BRASIL Ame-o ou deixe-o,” que fez voar muita gente para o exílio.

Nesse ano conheci  também no Clube Harmonia o jovem deputado estadual de São Paulo do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), João Paulo Arruda. Filho.  João Paulo, era 12 anos mais velho do que eu, tinha fama de playboy, e porque adquirira uma calvice precóce, o chamavam de Zumbí. Nunca gostei de chamá-lo assim, e o chamava pelo nome.  João Paulo e eu pertencíamos ao mesmo clã familiar dos “quatrocentões,” o clã dos “Botelhos”, pois tataravó materna era filha da irmã mais velha do pai do Conde do Pinhal,  Antonio Carlos de Arruda Botelho, e isso dentro da cultura quatrocentona nos tornava praticamente “parentes,” logo ele foi considerado digno de confiança por meus pais. Assim, convidou-me para jantar com uns amigos dele, meus pais lhe deram permissão. E sem dúvida foi uma noite memorável de domingo, pois jantamos no restaurante Casserolle, na Praça do Arouche, e após o jantar atravessamos a rua juntos e ele me deu um buquet de violetas, as quais gostei muito mais que lindas rosas que portaram o convite (as primeiras que recebera de um “fã”) e os buquezinhos de violetas acabaram virando uma tradição entre nós toda vez que saíamos juntos.


João Paulo e eu não chegamos a namorar, pois gostava do homem trabalhador e sério por trás do personagem de playboy de João Paulo, e foi sempre esse lado dele,  que poucos conheciam, que me cativava, enquanto o de playboy me afastava dele. Mas, isso não impediu que ele fosse meu cicerone nos palcos políticos de São Paulo e depois em Brasília.

Em Londres, 21 de janeiro de 1971
1971  (aos quase 16 anos) – O ano de 1971 seria memorável, primeiro porque meus pais levaram meu irmão e eu à nossa primeira viagem à Europa, não foi uma viagem muito agradável, pois meu pai espelhando a ditadura militar tornara-se no convívio familiar um verdadeiro general despótico que não podia em nada ser contrariado, embuira-se no dever de guia turístico histórico, acordávamos as seis da manhã e as sete já estávamos caminhando no frio gelado do inverno europeu fazendo uma verdadeira romaria por monumentos e museus, e quando voltávamos de noite ainda tinhamos que escrever um diário relatando todos locais visitados. Foi assim em Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França e Inglaterra,  e quando voltei da viagem estava mais exausta do que descanasada, certamente aquilo não poderia ser chamado de férias.

Meu pai era médico, mas não exercia a medicina, pois foi um dos primeiros médicos brasileiros a entras para a área de pesquisas médicas das indústrias farmaceuticas, até 1963 ele trabalhou na multicional suiça Sandoz, e vem dessa convivência com os suiços minha fascinação pela Suiça, mas em 1964, um pouco após a entrada do governo militar, ele recebeu uma proposta irrecusável e passou a trabalhar para a multicional farmaceutica norte-americana Johnson & Johnson.


Em junho de 1971, meu pai já se tornara o interlocutor da Johnson & Johnson com o governo militar brasileiro, ao bem da palavra o principal lobista da multicional, em razão ao seu trânsito com os militares por ter feito parte da Escola Superior de Guerra. Então, como ia acontecer um Congresso da Indústria Farmaceutica em Brasília, meu pai considerou que seria uma ótima oportunidade para que mamãe, minha avó Zilda e eu fossemos com ele para conhecermos a nova capital do Brasil, que acabara de completar 10 anos desde a sua inauguração.


E, lá estava o agora Deputado Federal João Paulo de Arruda Filho esperando-me para ciceronear-me no palco maior da política nacional, e o fez de maneira memorável. Foi por conta dele que a cena mais hilária da minha vida aconteceu. Ele tinha me levado para conhecer o Congresso Nacional e o tour foi longo e demorado, pois ele queria que não só eu conhecesse o Congresso, mas todos políticos que estavam por lá naquele dia, deputados e senadores. Nós tinhamos almoçado no restaurante da Câmara e depois percorremos os gabinetes, plenários e salões do Congresso, quando vimos já estava em cima da horário marcado para o encontro das senhoras dos participantes do Congresso da Indústria Farmaceutica com o presidente da República Emílio Garrastazu Médici, no Palácio do Planalto. Então, João Paulo conseguiu que o carro oficial do Senador Franco Montoro (MDB/SP), que também tinha laços de amizade com meu pai,  me levasse até o Palácio do Planalto.

A rampa do Palácio do Planalto
E, lá fui eu de motorista e carro oficial, achando que era grande gente. O motorista parou o carro em frente a rampa do Planalto, a entrada oficial, desceu e abriu a porta e estendeu a mão para eu descer e ao pé da rampa, quando olhei para cima pude ver dezenas de olhares femininos pousados em mim. Corajosamente comecei a subir a rampa rezando para que os meus pés pisassem firmes e as pernas parassem de tremer e não me deixassem tropeçar. Uau! Consegui chegar incólome e logo veio a minha mãe dizendo: “Só podia ser você mesmo Bia! Todas nós estávamos curiosas para saber quem estava chegando no carro oficial. Quando você apareceu só me restou rir da sua surpresa!” É, mas a surpresa dela seria ainda maior, pois quando o presidente Médici chegou no salão logo foi comprimentando as senhoras uma a uma, ao chegar em mim, abriu um sorriso largo de satisfação, e  ao comprimentar-me fez desaparecer a minha mão nas duas mãos dele, que eram enormes, almofadada e macias, perguntuntando-me: “E quem é essa linda senhorita? Sem dúvida uma digna representante da juventude brasileira!” Eu fiquei rubra de timidez e simplesmente perdi a fala. Ele vendo o meu constrangimento, foi dizendo. “É um enorme prazer recebê-la.” Ao que respondi recobrando-me: “O prazer é meu, senhor presidente, de ter a honra de conhecê-lo.” E, finalmente tive a minha mão libertada do enlace carinhoso dele e o presidente Médici educadamente, dirigiu-se às outras senhoras e disse: “Sejam todas bem-vindas,  todas vocês que representam a força do nosso Brasil.”  Naqueles dias falar com o Presidente da República do Brasil parecia o mesmo que conseguir falar com Deus.


Ao voltar às aulas em agosto, eu fui suficientemente sensata ao relatar à minha classe a minha viagem do início das férias, contando apenas que fora conhecer Brasília, e omitindo o meu encontro com o presidente Médici, porquanto era crescente o descontentamento com a já institucionalizada Ditadura Militar, e a esperança do retorno democrático já se perdera, devido a constante conhecidência de algum ato terrorista ocorrer justo quando essa possibilidade era levantada, o que levava muitos a pensarem que tais atos terroristas poderiam ser patrocinados por aqueles que tinham interesse que as coisas permanecessem inalteradas, de forma que continuassem a lucrar em seus interesses com a permanência dos militares no poder. Além a censura dos meios-de-comunicação baixada pelo presidente fora do desagrado geral e o Jornal da Tarde (JT) dos Mesquitas passou a publicar receitas de culinária em vez das notícias que eram censuradas, num protesto silencioso contra a ditadura.

1972 (aos 17 anos) – Minha maior alegria nesse ano foi conhecer Vinícius de Moraes, o poeta da alma brasileira, quando dava um show para poucos no clube Harmonia com Toquinho. Perguntei a ele como é que eu poderia me tornar uma poeta como ele, e ele sorriu aquele sorrioso brincalhão e disse em rima: “Mocinha bonita, siga seu coração, de menina.” Tem encontros nessa vida, que mesmo que durem um instante apenas, vale por toda uma vida, esse foi um desses encontros inesquecíveis que guardo no coração. Vininha estava certo…

1973 (chegando aos 18 anos) – Com o agravo dos protestos estudantis contra a Ditadura uma a verdadeira guerra se estabeleceu entre os jovens universitários de  direita e os da esquerda. Muitos jovens morreram naqueles tempos pelos mais variados motivos, desde em razão da luta armada aos acidentes de automóvel inexplicáveis e até por suicídios. Teve ano que nós íamos a um funeral por mês, e estar de luto se tornou normal. Não só uma geração de jovens foi ceifada como, também, mudou de maneira dramática o destino daqueles que conseguiram sobreviver à repressão do tempo da ditadura. Não era necessário ser ativista comunista, guerrilheiro de esquerda ou terrorista de direita para ir parar nos porões do DOI-CODE e ter o nome registrado no DOPS, muitos jovens simplesmente foram parar lá por pura bebedeira, pois se bebia muito naqueles tempos para se esquecer a realidade em que se vivia, e foram parar no pau-de-arara assim como os outros.


Revista Manchete 27/02/1973



Eu que tinha saído do meu colégio de freiras e pretendia continuar meus estudos em outra escola leiga,  fui aos poucos sendo levada a abandonar os planos de ir para a faculdade por meus pais. Uma vida muito prazerosa foi-me ofertada de bandeja em troca, eu tinha liberdade de sair à noite, eu voltei a montar à cavalo na Hípica Paulista, eu podia ir no Clube Harmonia todo dia e eu passei a viver num mundo de fantasias.




Contudo, um episódio inesperado fez-me cair na realidade. Era um sábado à tarde quando acompanhei um grupo de novos amigos do Harmonia ao apartamento de um deles. Chegando lá o que devia ser uma reunião divertida de jovens, simplesmente virou um pesadelo.


 Tratava-se na verdade de uma reunião dos membros do Comando de Caça aos Comunistas, o famoso CCC. Num dos quartos, em cima de uma cama de casal, estava exposto um verdadeiro arsenal de armas revólveres automáticos de vários calibres, metralhadoras e vários tipos de facas. 

Então, o dono do apartamento virou-se para mim e disse: ­“– Bia, você não pode mais ficar em cima do muro. Você vai ter que se decidir de que lado está. Se você apóia os militares você terá que escolher uma dessas armas e ir à luta conosco.” Eu simplemente gelei de medo apavorada, só queria sair dali o mais rápido possível.  Caiu um silêncio enorme, todos esperando a minha resposta e finalmente reuni toda a coragem que tinha, e disse: “­– Eu não posso fazer isso. Eu sou contra a luta armada. Eu acho que todos vocês estão errados, vocês e os comunistas.” E dizendo isso, eu tomei a direção da porta de entrada, e quando ia abrindo-a para ir embora, um deles me ameaçou dizendo: “– Vá embora, mas nunca diga para ninguém o que ouviu ou viu aqui.”


Com alívio eu desci no elevador e cheguei à rua Mello Alves e peguei um taxi de volta para o Harmonia, onde os meus pais iriam me pegar mais tarde. Desde aquele dia eu nunca mais fui a mesma e é certo dizer que este foi o fato que determinou o rumo que eu daria à minha vida dalí por diante: afastar-me o quanto mais fosse possível de todas as questões políticas brasileiras e buscar a segurança de uma vida em paz, longe de tais dilemas perturbadores. Mas, este não seria o meu destino, marcado pela falta de paz e repleto de dilemas, mas esta é uma outra história que talvez um dia eu venha a contar.


Quando o meu pai recebeu uma oferta da Johnson&Johnson para transferir-se para uma cidadezinha remota nos Estados Unidos, eu fui a única na família a me entusiasmar com tal oportunidade. Eu cheguei a preparar uma lista com os melhores argumentos para que o meu pai aceitasse a proposta, e decidisse ir embora do Brasil, pois lá eu pensava eu estaria segura e a minha família também, todavia acabei sendo voto vencido e ficamos no Brasil.


O ano de 1973 foi sacudido pelo escândalo do Watergate, que levaria o presidente norte-americano  Richard Nixon do partido Republicano a resignar ao seu segundo mandato em 9 de agosto de 1974, sendo sucedido por seu vice-presidente Geral Ford.

Encerrava-se assim a era Nixon, e também mudava a política externa norte-americana, que buscou afastar-se de controvérsias em sua política-externa com o objetivo de restabelecer sua credibilidade mundial abalada, tal política incluiu o distanciamento crescente das ditaduras militares que no passado auxiliara a implantar nos países da América Latina, no auge da Guerra Fria.  


Naturalmente, a Johnson & Johnson adotou a mesma linha da Casa Branca, logo, o fato do meu pai não ter aceitado a oferta de transferir-se para os EUA cobraria o seu preço. E, ele, então, com 49 anos, ao completar 10 anos de serviços foi demetido ao final de outubro de 1974. Ele tinha se tornado um homem que “sabia demais” e na sua ingenuidade não se dera conta, que a oferta dos norte-americanos não era para ser “negada,”mas que deveria ter sido aceita. Durante 4 anos meu pai foi obrigado à chamada “quarentena branca,” em razão de um acordo de cavalheiros existente entre as poderosas indústrias farmaceuticas internacionais, de que um funcionário de altos cargos não pode ser contratado por uma concorrente durante esse período.  Somente em 1978, que meu pai retornaria a trabalhar, desta feita na Hoechst alemã, e lá ficou até a sua aposentadoria. Assim, a festa da “classe média vai às compras” do "milagre brasileiro" acabou na minha casa.

1o. de abril de 1974 – A Revolução de 1964 completou seus 10 anos e os militares permaneciam inabaláveis no poder. 


Aniversário de 33 anos do meu filho Carlos
Para mim, com apenas 18 anos o sonho já tinha acabado em  dezembro de 1973, quando comecei a trilhar o meu próprio caminho de “sobrevivente,” pois por medo do futuro, com a perspectiva de um país sacudido pela instabilidade política, social e econômica, eu sem dúvida acabei tomando decisões erradas, as quais conduziram-me a um destino tortuoso, que no meio das reviravoltas de seus altos e baixos trouxe-me a minha única esperança de vida: o meu filho. Ele foi a minha âncora, que não deixou que eu fosse à deriva durante os anos de tormenta. E, em razão dele, acabei me tornando uma pessoa com uma causa para defender, pois não queria que o meu filho passasse pelo que eu passei.  Eu queria que ele tivesse o direito e a oportunidade de realizar seus sonhos, e graças a minha Fé e a minha confiança em Deus, ele conseguiu.  Isso me basta para ser feliz. Contudo eu não desejaria nem para o meu pior inimigo o caminho que eu tive de trilhar para alcançar esse desejo do meu coração amoroso de mãe, assim como desejo que nunca mais nenhum brasileiro precise passar pelos tormentos que a minha geração passou. Pois, meninos, eu ví!

Sim, eu ví! Ví o meu povo perder seus sonhos e suas esperanças. Ví o Brasil empobrecer e sofrer. Ví o Brasil humilhado e desacreditado. Ví os jovens morrerem, e os velhos chorarem. Ví a fome e a miséria. Ví os ricos ficarem mais ricos, e os pobres mais pobres. Ví as pessoas perderem tudo o que tinham, enquanto outros ficavam com seus despojos. Ví as famílias acabarem. Ví a honra, a dignidade e a honestidade não terem mais valor. Ví ladrões, crápulas e canalhas serem reverenciados. Ví as mulheres serem humilhadas e desrespeitadas. Sim, meninos, eu ví! Que o homem é o lobo do homem e que o Inferno pode ser aqui. Rezo a Deus todos os dias que tais dias de desolação jamais voltem ao povo brasileiro, pois não importa de quem foi a culpa, mas, sim, que tais erros e crimes  não voltem a ser repitidos.  Rezo a Deus, meus meninos brasileiros, que vocês jamais vejam o que eu ví. 


E, se alguém disser para vocês que a verdade do passado está aqui ou está acolá, não acreditem, pois a verdade verdadeira nunca será contada. E, no que diz respeito ao “passado obscuro” do Brasil, aqueles que foram realmente culpados não serão denunciados e nem punidos, pois muitos já estão mortos, e os que estão vivos são poderosos demais para se sentarem no banco dos réus. Mas, meninos, eu os ví destruindo o Brasil! Sim, eu os ví ludibriar e mentir! Não se deixem enganar como eu, a única verdade que importa está no coração de vocês! Sigam seus corações!


Links dos artigos já publicados relacionados com essa postagem:






DIFERENÇAS DE EDUCAÇÃO 
(sobre os "Quatrocentões")
OS TECELÕES 












(prefácio, encontro com Jânio e outras questões sobre as "redes de poder e influência" na sociedade humana)








2 comentários:

  1. Adorei sua estória e a forma simples e direta de narrá-la.
    É muito bom recordar o passado, principalmente quando foi pleno de alegrias.
    Gilberto Serra

    ResponderExcluir
  2. QUESTÃO VERNÁCULA:

    ESTÓRIA

    1979 - Antonio Houaiss:s.f. Narrativa de ficção: exposição romanceada de fatos puramente imaginários (distinta de 'história,'que se baseia em documentos ou testemunhos); conto, novela, fábula.

    1988 - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira: s.f. V. história > narração de fatos, acontecimentosou particularidades relativas a um determinado assunto.

    2011 - Wikipedia
    Estória
    Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
    Estória é um neologismo proposto por João Ribeiro (membro da Academia Brasileira de Letras) em 1919, para designar, no campo do folclore, a narrativa popular, o conto tradicional.[1]
    Alguns consideram o termo arcaico, por ter sido encontrado também em textos antigos, quando a grafia história ainda não havia sido consolidada na língua portuguesa.[1][2]
    O termo acabou por não ter uma aceitação generalizada, não figurando nos dicionários portugueses e apenas em alguns brasileiros.[3] Apesar de ter sido usada na linguagem coloquial, o termo nunca figurou na norma culta.
    O Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete classifica o termo como brasileirismo, afirmando que a palavra foi proposta, mas deve ser usada a forma história.[4]
    No Brasil, estória tem uma conotação de narrativa criada, inventada, sugerida, uma obra de ficção. Já a história é uma narrativa que faz parte dos fatos reais ocorridos na vida dos povos, uma obra não ficcional.

    ResponderExcluir